...Foi um baque quando todos descobriram o que ela fazia. Sempre muito bem vestida. Sempre andando com novas roupas. Mas em seis meses ninguém chegou perto de adivinhar de onde vinha o dinheiro. Alguns até desconfiaram e brincaram com o tema uma vez. Sem ela escutar, é claro. Não queriam deixar ninguém constrangido com uma brincadeira aparentemente sem nenhum fundo de verdade.
...Nisto, Vitória entrou. Linda como sempre, sacudindo o cabelo, usando os óculos de grau com aros vermelhos na frente de seus olhos verdes penetrantes. Salto e saia, combinava em tudo. Até seu caminhar combinava com o lugar. Passou, como sempre passava, com a pasta preta pelo escritório, que ninguém sabia ao certo o que continha. Todos olharam e comentaram, mas desta vez os comentários masculinos não iam a elogios ao físico, nem as mulheres falavam mal do jeito dela vestir-se para se auto-elogiarem. Todos faziam comentários vazios e depreciativos.
...Loira, alta, magra. Quem imaginaria que fosse a própria autora de um dos maiores clássicos da auto-ajuda da atualidade? “Como fazer as coisas darem certo para você.”
...Ela estranhou quando, no escritório, observou exemplares de sua obra nas mesas de quase todos os funcionários. Pensou até que alguns, já sentados, estavam sorrindo para ela de um jeito novo, estranho. Muito mais estranho do que o habitual. Tudo bem, tentou controlar seus pensamentos. Sentou e abriu sua pasta, iniciou seu trabalho de sempre. Digitou em seu laptop algumas linhas do processo que tinha nas mãos.
...“Então...” Uma voz masculina quebrou o silêncio. “...Você é a famosa escritora misteriosa.” Era o chefe, com o livro nas mãos praticamente implorando por um autógrafo. Acordou. Estava ainda sentada em sua mesa e o mesmo clima de desconfiança de todos. Continuou a digitar. Por cima da tela de plasma observava flashes de imagens.
...Alguém levanta... Anda... Chega perto... Menção a qualquer palavra... Desiste... Volta... De novo... Repetição das cenas com ‘atores’ diferentes... Alguns nem chegavam a levantar-se só apanhavam o livro... e nada.
...E o dia foi transcorrendo daquela maneira. O dia todo... Assim. Vitória tinha rompantes de memória, uns que faziam paparazzi descerem do teto, todos descobrirem a verdade e uma tarde de autógrafos acontecer com milhões de fãs ali mesmo. Outro no qual ela não agüentava-se o desespero e entregava-se em gritos: “Sou eu mesmo!”. Todas as viagens tinham o mesmo desfecho praticamente. Mas nada efetivamente aconteceu.
...O sol se pondo e atitude nenhuma. Até que todos foram embora para suas casas, para terminarem de viver suas vidas com seus familiares como sempre faziam.

2 comentários:
Eeita! Até onde pode levantar voo o pensamento de alguém que sonha? Sabe, sonhar é uma coisa foda. Acho que é a verdadeira fonte da felicidade.
muito bom tavos.......
sem conclusões......cada um com suas milhões.......;)
adorei.....
e claro, nunca nada estará bom o bastnate pra ninguem....
beijão!!!!
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