sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Rua

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Meio dia, a barriga do advogado roncou quando o relógio apitou. O calor era insuportável, ele tirou o terno e o repousou no encosto de sua cadeira. Logo afrouxou a gravata. Saiu do escritório. Passou pela porta e a puxou fazendo esta encostar sozinha. Avisou a secretária que se divertia contando as fofocas da noite passada para duas amigas no MSN. “Vou fazer um lanche no café aqui em frente, se alguém ligar já sabe o que dizer.” Ela assentiu com a cabeça fingindo atenção, mas nem por segundos desviou o olhar da tela de plasma. Abriu e fechou a porta desta vez com um zelo exemplar. Alinhou os ombros e endireitou a coluna para enfim apertar o botão do elevador. Poucos segundos de espera, abriu a porta do elevador vazio entrou e conferiu-se no espelho. Virou e apertou o botão onde avia um “T”. No minuto que precedeu no elevador pôs-se a pensar no café e no sanduíche que iria comer, já começava a salivar excessivamente quando o elevador parou no térreo. Abriu a porta e a segurou por alguns instantes para que o casal pudesse entrar. Cumprimentou os dois apenas com um aceno de cabeça simpático. Deu mais uma serie de passos e saiu do prédio.

...Para chegar ao café, ali na frente tinha que cruzar uma avenida com um canteiro no centro. Poucos metros antes de onde estava havia uma lombada. Dois passos para frente. Parou. Esperou o carro. Ao ver que atrás do primeiro estavam dois em seguida resolveu voltar à calçada. Pensou: “Já podia ter ido.” Olhou seu rolex e percebeu que já haviam passado cinco minutos e meio desde que deixara seu escritório. Ameaçou ir depois que os três carros já aviam passado, mas novamente desistiu. “Este outro esta embalado, não vai demorar a passar.” Mas o carro diminuiu a velocidade. “Não, a lombada!” Pensou em ir, mas já era tarde de mais e o carro estava acelerando de novo. “Depois deste talvez.” Um passo, dois passos, em três passos atravessou pouco menos da metade e um carro dobrou a esquina. “Tem a lombada.” Mas o carro acabou passando batido. Buzinou alto para o cidadão que novamente recuou e deixou o carro passar com um sorriso falso e simpático. Depois deste ultimo, em passos exageradamente grandes e com alta velocidade concluiu cinquenta por cento de seu caminho alcançando o canteiro de flores. Com um cuidado fenomenal para não sujar seu sapato na terra, parou com as pernas abertas em cima do canteiro. Enquanto respirava ofegante esperando a interminável fila de carros correndo no sentido contrário sentiu uma gota de suor percorrer a testa até a sobrancelha. Respirou fundo para se conter. Seu dia não havia sido excepcionalmente bom pela manhã, mas tinha de dar um jeito de mudar esta onde de azar que o assolava desde as sete da manhã. Quando acordou zonzo e topou com o dedão no pé da cama. Respirou fundo e olhou para o fim da fila de carros que se aproximava. Quando houve a folga ele pôs-se a atravessar a rua como se fosse uma estrela de cinema. Mas na metade do caminho a voz de uma senhora ecoa em seu ouvido. “Moço, eu quero cruzar a rua, você pode voltar e me ajudar?” O desespero voltou a sua cabeça. “Não pode ser... Logo agora. Estou tão perto.” Por fim decidiu fingir que não escutou. Terminou a travessia com o nariz empinado.

...Entrou no café e respirou fundo triunfante. “Consegui!” Seus olhos brilhavam e seu sorriso estava anormalmente grande. Andou até o canto e sentou-se perto do ventilador. Enquanto esperava a garçonete atraente vir lhe perguntar: “O que o senhor deseja?” Ele deu uma olhada no transito. Logo seus olhos localizaram a ultima coisa que desejava ver. A velha. Ela olhava a rua e os carros passando. A cena deplorável. Ameaçava cruzar e não ia e quando estava prestes a conseguir a primeira metade via alguma coisa que a fazia voltar à estaca zero. O homem começou seriamente a pensar em cruzar a rua novamente para ajudar a senhora quando a garçonete chamou sua atenção. “Quero um capuccino e um pão de queijo por favor.” A garçonete deu meia volta e voltou ao balcão rebolando. Minutos depois seu pedido chegou. Ele observava a senhora tentando cruzar a rua. Agora já estava na metade com a ajuda de um outro cidadão.

8 comentários:

Esdras Bailone disse...

Bom texto, que descreve o caos do trânsito brasileiro!!!

Gustavo Oliveira disse...

Bom garoto :P
òtimo texto, grande futuro literário!

Cássio disse...

verídico? Nada como a confusão brasileira, para nos tirar do sério e quanto ao trânsito?Cada dia que se passa esse país fica um caos maior.

abraços

. disse...

Vocês escreve muito bem, com detalhes, ,prende a gente até o final! Realmente, passou o que acontece no cotidiano de cidades grandes, o que acontece na vida de muitas pessoas, ou 'da' pessoa, Pois cada um é cada um!
Muito bom, eu gostei!

Jân Bispo disse...

Parabéns, primeiramente pela escrita, definitivamente escreves muito bem, a verdade é que cotidiano nosso de cada dia (redundante) é rico em detalhes que muitas vezes nem prestamos atenção, ai está em seu texto a riqueza que se perde quando não se presta atenção as coisas, a vida anda correndo de mais, e perder mais de 5 minutos para atravessar uma rua é complicado, mais é o que anda acontecendo, como dizem alguns perdeu-se o senso de gentileza, dizem que no transito a vez é sempre do pedestre ou seja se ele estiver na faixa dê passagem, 1 em 1 milhão faz isso.
parabéns pela crônica muito boa!

Canal Cereja disse...

OOOng! q homen egoístaa!! Executivo de nariz em pé é o Ó! HAUHAUHUA
Nem pra passar um carro e jogar toda a água da calçada na cara dele, seria tão emocionante *_*


http://canalcereja.blogspot.com/

Bju

Unknown disse...

ah cara, é um bom texto! curti :D

Isah S. disse...

Eu até escreveria um comentário mais longuinho, mas ficaria igual ao do J.B. hahahaha